Então, meu blog, o Buzios Papers, será um modo - um caminho - de expor idéias, coisas que faço, impressões sobre o que está rolando pelaí, notícias que me balançam mais do que o normal, e de papear eletronicamente com os amigos... É isso aí. Agora, eu. Na Arte, faço de tudo um pouco: desenho, pinto, faço cerâmica. Cometo minhas poesias e contos. Sou tradutor de artigos científicos e livros da área médica. Fiz algumas exposições de cerâmica e desenhos no Rio de Janeiro, Niterói, Búzios, Rio das Ostras e São Paulo. Vivo aqui no paraíso de Búzios há sete anos... na Praia Rasa. Rubronegro doente. Amo o Rock Clássico. E o Carnaval. Um enorme orgulho profissional: ter sido Diretor Carnavalesco da Escola de Samba Combinados do Amor, a gloriosa agremiação do bairro do Caramujo, em Niterói... Meu bloco carnavalesco para sempre: "Filhos da Pauta", também de Niterói. Sou da noite, sou festeiro, e meu Triângulo das Bermudas é o eixo Rio - Niterói - Búzios. Objetivo maior: viver o momento presente, todos os momentos da minha vida.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

você está de acordo com a Igreja Católica, que proíbe o uso de métodos anticoncepcionais (camisinha, etc.)?
Pelo sim, pelo não, aí vai o método da tabelinha - Esse a Igreja aceita...


Método da Tabelinha, ou de Ogino-Knaus


É um método que calcula pela contagem dos dias, o período em que a mulher estará fértil, ou seja, o período em que ela ovulará. Neste período ela deve evitar ter relações sexuais ou tê-las usando a camisinha para não correr o risco de engravidar.
• Este método necessita de controle constante das datas de menstruação que devem ser anotadas, em calendário, todos os meses, por um período mínimo de 6 (seis) meses, para conhecer o ciclo menstrual. Esse método não pode ser feito quando a mulher está usando qualquer contraceptivo hormonal, que faz alterar o ciclo menstrual e fértil da mulher.
Nos 2 primeiros anos de início de menstruação não deve ser um método adotado por adolescentes, pois elas ainda estão com o ciclo menstrual inconstante e em fase de regularização.

Como utilizar:

• A mulher deve marcar num calendário o dia que começa sua menstruação por 6 ou 7 meses. Dessa forma poderá contar o número de dias de seu ciclo menstrual, ou seja, quantos dias se passam entre uma menstruação e outra.
• Esse número de dias dividido por 2, indicará o meio do ciclo. Assim, se a mulher tiver um intervalo entre as menstruações de 30 dias, o meio de seu ciclo será com 15 dias do início da menstruação, se seu ciclo for de 34 dias, o meio será com 17 dia, se seu ciclo for de 28 dias, o meio será 14 dias, e assim por diante. Cada mulher tem um ciclo diferente.
• Então a mulher deve marcar em um calendário, contando os dias e somando os dias do seu ciclo, as datas em que deverá menstruar novamente. Também deve marcar em outra cor a data de meio do ciclo e sublinhar os três dias antes e depois desse meio de ciclo.
• Nesses 7 dias, os 6 que sublinhou, mais a data de meio do ciclo, não deve ter relações sexuais, ou tê-las usando camisinha, pois estará no período fértil. Nesse período o óvulo está sendo liberado e pode ser fecundado gerando a gravidez. Assim, todo mês ela poderá saber quando estará em risco de gravidez.

Vantagens:
• Este método favorece o conhecimento dos períodos de menstruação e fertilidade de cada mulher.
• Não apresenta efeitos colaterais.

Desvantagens:
• Este método exige disciplina da mulher nas anotações mensais de seu ciclo menstrual e necessita de abstinência ou uso de camisinha nos dias férteis.
• Não deve ser utilizado no período em que a mulher estiver amamentando, pois a menstruação desregula a ovulação e o período fértil.
• Este método necessita de treinamento para cálculo do período fértil por no mínimo 6 meses para que não haja tanto risco de gravidez,
• Não previne contra as DST/Aids.
• Não é recomendado para adolescentes, pois pode ocorrer falhas e gravidez.

domingo, 19 de novembro de 2006

Mulheres maravilhosas I - Marina Lima

O CORNO

O sujeito chega em casa mais cedo que o normal, de mansinho, e olhando pelo buraco da fechadura do quarto, vê a mulher dele na cama com outro... Tirou o revólver da cintura, armou o gatilho e entãoo já ia entrando no quarto e metendo bala nos dois, quando parou pra pensar e foi percebendo como a sua vida de casado havia melhorado nos últimos tempos. A esposa já não pedia dinheiro pra nada, nem para comprar vestidos, jóias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou uma sandalinha da moda. Os meninos mudaram na escola pública do bairro para um cursinho superchique, na zona Sul. Sem contar que a mulher trocou de carro, apesar dele estar há quatro anos sem aumento e ter cortado a mesada dela. E o supermercado então, nem se fala, eles nunca tiveram tanta fartura quanto nos últimos meses. E as contas de luz, água, telefone, internet, celular e cartão de crédito, fazia tempo que ele nem ouvia falar delas. E a mulher era mesmo um avião. Coisa de louco.
Guardou a arma na cintura e foi saindo devagar, para não atrapalhar os dois. Parou na porta da sala e disse prá si mesmo:
- O cara paga o aluguel, o supermercado, a escola das crianças, as contas da casa, o carro, o shopping, todas as despesas e eu ainda vou pra cama com ela todos os dias... E fechando a porta atrás de si, com todo o cuidado, concluiu:

- PORRA! CORNO É O CARA!!!

sexta-feira, 17 de novembro de 2006



INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA EM BÚZIOS
Entrevista com Bo Montenegro, cineasta

Fernando Naxcimento
Na foto: Fernando Naxcimento, Bo Montenegro, e Marcello Moraes
Foto de Gil Assis

Bo Montenegro,
cineasta e produtor, diretor de “Buzioswood”, nos recebeu em sua casa para falar sobre indústria cinematográfica em nossa cidade. Participaram também dessa conversa Shana Genaro, produtora e fotógrafa de cinema, Gil Assis, da Takahouse e Marcello Moraes, artista plástico. Como a casa é de cineasta, a entrevista toda foi filmada, e será editada, constituindo um documento importante para o entrevistador e para o Jornal Primeira Hora. O filme “Buzioswood” terá seu lançamento no Festival de Cinema de Búzios, às 18:00, nos dias 25 e 26 de novembro, no Gran Cine Bardot.

Pergunta: Me interessa muito saber sobre o cineasta Bo Montenegro. E suas impressões sobre a platéia de cerca de 200 pessoas que compareceram no Pérola, semana passada, numa noite chuvosa e com várias festas rolando pela cidade, para assistir o making-of do “Buzioswood”. O que você faz, porque o cinema, porque o quixotismo todo da Buzioswood, e porque aqui em Búzios...
Bo Montenegro – Pergunta difícil... Morei nos EUA durante 20 anos, e Búzios me lembrava muito a Califórnia, essa coisa de praia, etc. Tentei reviver aquela coisa gostosa que vivi na infância. Vim de uma casa onde o cinema era apreciado extremamente, com um pequeno estúdio. Fui criado no meio do cinema. Tive uma carreira bastante rápida como ator no Tablado da Maria Clara Machado. Então, fui estudar cinema nos EUA. Me formei pela UCLA. Fiz também o Actor’s Studio, e aprecio demais a linha do Francis Ford Copolla e do Martin Scorcese. Estudei com pessoas ligadas a esses dois diretores, e também ao Robert Altman, diretor do clássico “M.A.S.H.”. Estudei direção de cena. Como sou fruto de “palco”, pra mim essa coisa de palco é muito levada a sério no ensino do cinema.
P – Aqui em Búzios, você não conhecia ninguém. E , em corte rápido, começa a fazer filmes. Sem grana, de repente você faz um projeto pioneiro. Me lembrei da “arte povera”, em que o diretor pega gente comum, sem experiência, e saem filmes. Com essa turma toda, como é que a coisa sai do plano onírico e entra para um produto acabado que pode virar uma marca para Búzios, uma indústria não-poluente e charmosa, com gente vivendo dela, com empregos, com empresas e prefeituras contratando filmes?
Bo Montenegro – A pergunta tem a ver com a magia. O primeiro contato real com o cinema é aquela coisa de pipoca na boca, o escurinho do cinema – o cinema apaixona, envolve. Sua pergunta carrega tudo o que representa minha idéia hoje. Assim, um dia cheguei para o Bebeto Karolla e seu grupo de teatro amador, e perguntei: “Vocês querem fazer cinema?”

(para o resto da entrevista, veja semana que vem no Jornal Primeira Hora.)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

A arte de Guy Forest

Personalidade Universal



DALAI LAMA Tenzin Gyatso, monge e doutor em filosofia budista, Prêmio Nobel da Paz, agraciado com mais de 100 títulos honoris causa, líder e mentor do povo tibetano, 14º Dalai Lama, é uma das vozes mais lúcidas e comprometidas com a paz, o diálogo e a compaixão no cenário mundial contemporâneo. Pesquisador infatigável, abriu as portas para o encontro da ciência com a espiritualidade quando, em 1987, reuniu-se durante uma semana com cinco cientistas ocidentais para debater a proximidade entre o budismo e as ciências cognitivas. A partir dali criaram-se centros e fóruns internacionais onde a experiências espiritual é estudada e acolhida como aspiração genuína de um saber que revela novos espaços de consciência e expressão.

Cidadão planetário, manifesta especial interesse pelas pontes, articulações, sinapses, desafiando ortodoxias que retardam o exercício da vocação humana para o cuidado mútuo, a convivialidade e a cooperação. Nesse sentido apela para que cada um de nós aprenda a trabalhar em benefício não só de si próprio sua família ou nação, mas em prol da humanidade como um todo. A responsabilidade é a chave para a sobrevivência do humano e é a melhor garantia para implementar os valores universais e a paz.

... rir é o melhor remédio!... XII - XIV



Poesia para um dia de chuva

Solidão
(nesse momento, está chovendo demais em Búzios - o que não é a cara da minha aldeia... Um pouco triste, viajando no que poderia ter sido - mas felizmente não foi.)

Vidas atrás, tu e eu:
moleques transviados.

A camisa listradinha da moda,
e a descoberta da impunidade,
sem medo, bêibe, sem maldade.
A camisinha grudada em ti
e teus seios-meninos...

O CD não descolado
apesar do plano perfeito,
e o olhar, meio sem jeito, assim,
no CD do Raul Seixas...

O banho de perfumes
que me destes, e os cheiros vizinhos
sensuais, e a pressão da mass-mídia,
demais, bêibi, demais.

E nós dois na cachoeira
na nossa Marombassanta
e o baixa-santo teu e meu,
nosso batismo safado
de cânhamo e fluidos
e suor e patchouli...

O carro quebrado madrugadinha,
na mata fechada. O incenso nas mãos
e os risos de rebrilho, e o namoro-arrochado
no ponto.
Suados, quentes, tu sorris, eu tonto.
O carro nosso, deusa,
pra sempre inútil...

E o desejo nosso fútil
de morar por lá, bichos-do-mato.

No ônibus pra algum lugar,
de novo pé-na-estrada,
no ato,
mochilas, canequinhas,
bolsas a tiracolo
o imprescindível cobertor
quadriculado.

E eu, alucinado
com teu medo fake de seres assaltada
por teu vândalo, n’alguma curva
mais escurinha – o teu desejo
confesso, maroto, safado
de seres violada, agorinha,
naquele berço fofo
de flores-gilquinhas...

***
A camisinha grudada,
o CD, o banho sagrado na mata,
o teu despudor, a minha tara,
o nosso carro quebrado,
pobre coitado,
a doce violência, o afago,
o seu medo-pânico fingido
do teu vândalo/vassalo
em nossos transportes de gozo,
minha princesa, princesa,
princesa, princesa minha,
minha deusa, meu amor,
meu amor...!

se foram, todos, pra sempre,
contigo.

***
Hoje, sou respeitável,
sou cidadão imaculado,
verdadeiro pilar
da comunidade...

Aqui, hoje, cercado desses luminares,
sobrenado. E sobrevivo nessa
descarnada realidade
do meu dia-a-dia.

Sabes? Nessa casa fria
coisas me vêm na cabeça, doidas,
quando chove como agora...

É que sozinho fiquei
pra sempre, querida, tragicômico,
depois que te fostes, assim,
tão casual - enguiçado
n’algum ponto remoto
do tempo

perdido pra sempre,
à cata da nossa vida,
do teu rosto
teu suor
tua voz
de ti


.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

domingo, 12 de novembro de 2006

Personalidade da Semana... II


BETINHO



Herbert José de Souza, o Betinho, nasceu em 3 de novembro de 1935, em Minas Gerais, região montanhosa no interior do Brasil cujos habitantes são conhecidos por sua mansidão, pelo jeito calmo e sutil. "É um mineiro", diz-se das pessoas equilibradas, que dificilmente se exaltam ou assumem posições contundentes. Isso talvez ajude a explicar por que Betinho, assumindo integralmente as mais radicais utopias de transformação social, fazendo da sua própria vida uma bandeira costurada de bandeiras universais, sempre trabalhou no sentido de congregação, da união.


Terceiro de uma série de oito irmãos, completou, em 1962, os cursos de Sociologia e Política e de Administração Pública na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais. Nessa época, atuou como liderança nacional dos grupos de juventude católica que representavam as aspirações de transformação social, depois reforçadas com o Concílio Vaticano II e participou das conquistas pelas chamadas "reformas de base". Segundo testemunho do escritor Otto Lara Rezende, da Academia Brasileira de Letras, Betinho, nas praças públicas, pedia tudo que os comunistas pediam - e mais o céu. Nesse período de vida democrática do Brasil, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura e na Superintendência de Reforma Agrária, além de elaborar estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU. Data desse período também a sua presença nos movimentos operários brasileiros.

Com o golpe de 64, passou a atuar na resistência contra a ditadura militar, dirigindo organizações de cunho democrático no combate ao regime que se instalava. No começo da década de 70, foi para o exílio e, como no poema de Brecht, trocava de país como quem trocava de sandálias. Morou primeiro no Chile, em Santiago, onde deu aula na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales e atuou como assessor do presidente Allende.

Conseguiu escapar do sangrento golpe militar do general Pinochet, indo para a embaixada do Panamá, em 1974. Seguiu depois para o Canadá e México. Exerceu, nessa época, diversos cargos: diretor do Conselho Latino-Americano de Pesquisa para a Paz (Ipra), consultor para a FAO sobre projetos e migrações na América Latina e coordenador do Latin American Research Unit (Laru), entre outros. Foi, ainda, professor efetivo no Doutorado de Economia da Divisão de Estudos Superiores, na Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autonoma do Mexico, e diretor de Brazilian Studies, no Canadá.

Com o crescimento dos movimentos pela democratização dos meios de comunicação no Brasil, seu nome tornou-se um dos símbolos da campanha pela anistia. Em 1979, retornou ao país e envolveu-se inteiramente nas lutas sociais e políticas, sempre se propondo a ampliar a democracia e a justiça social. No início dos anos 80, ajudou a fundar o ISER - Instituto de Estudos da Religião -, presidiu a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS - ABIA, fundada, em 1986 e uma das primeiras e mais influentes instituições do País, preocupada com a organização da defesa dos direitos das pessoas portadoras do HIV ou doentes com aids. A sua luta pelo direito à vida aos portadores do HIV/AIDS não foi apenas pessoal, mas contextualizou-se em um nível mais amplo e elevado, o da defesa da dignidade humana. Além disso, dedicou-se à Coordenação-Geral do IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas -, cargo ocupado até os últimos dias, com firme resistência física e brilhante lucidez e consciência da realidade brasileira, cuja perversidade - exclusão social, concentração de renda e controle político - nunca deixou de denunciar. O Ibase é uma entidade governamental e tem como objetivo principal democratizar a informação acerca das realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil.

A natureza não foi benevolente com o cidadão Betinho. Hemofílico, contraiu a aids em uma das inúmeras transfusões de sangue a que era obrigado a se submeter. Por essa mesma condição genética, em 1988, em um intervalo de três meses, Betinho perdeu dois irmãos: o cartunista Henfil, aos 43 anos, famoso pelo uso hábil e criativo do humorismo na crítica à ditadura militar, mesmos nos seus piores momentos de repressão à livre expressão política; e o músico Chico Mário, com apenas 39 anos. Mesmo abalado por estes acontecimentos, Betinho nunca abandonou a militância política, sempre presente em cada evento que levantasse a bandeira do humanismo.

No dia 05 de julho de 1997, Betinho foi internado no Hospital da Beneficiência Portuguesa, no Rio, vítima de uma infecção oral. Vinte e seis dias depois, pediu para voltar para casa. Morreu aos 61 anos, em 9 de agosto do mesmo ano, em sua casa, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, vítima da hepatite C. Em 11 de agosto, o corpo do sociólogo foi cremado. A seu pedido, as cinzas foram espelhadas em seu sítio em Itatiaia.

Betinho é, sem dúvida, o símbolo da determinação e do trabalho incansável pela cidadania, pela restauração da verdadeira democracia participativa, pela valorização da solidariedade e dos direitos humanos em uma sociedade injusta. Por essa constante postura desempenhou um importante papel em relevantes momentos da história recente do país e em vários movimentos de mobilização social, entre eles: a articulação da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, em 1983, congregando entidades de trabalhadores rurais; a organização, em 1990, do movimento Terra e Democracia; a liderança, em 1992, do Movimento Pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano. Terminada a batalha do impeachment, Betinho dedicou-se à Ação da Cidadania contra a Miséria e Pela Vida. A campanha contra a fome ganhou as ruas em 1993 e chegou ao final daquele ano com total aprovação da sociedade - 96% de concordância, segundo o Ibope. Sua figura humana adquiriu, então, notoriedade definitiva como o incansável Coordenador da "Ação pela Cidadania contra a Fome e a Miséria", que pretendia ir além de um movimento social de caráter assistencialista, para aglutinar outros movimentos e iniciativas individuais e comunitárias em todo o País. A "Campanha do Betinho" foi tão polêmica quanto popular e o seu sentido político maior, razão principal da polemização em torno de suas ações, tinha por objetivo final a promoção da cidadania, do direito ao emprego e da luta pela terra, etapa final do programa de ação planejado e o maior legado público da vida deste brasileiro humanista.

No ano de 1994, lançou a Campanha "Natal sem Fome", que arrecadou, no primeiro ano, 600 toneladas de alimentos. Em agosto do mesmo ano, fez um pronunciamento na ONU, na reunião preparatória para a Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Social. Houve, ainda, dois momentos marcantes: a Caminhada pela Paz do Movimento Reage Rio, em novembro de 1995; e o desfile no carnaval de 1996, quando Betinho foi enredo da Escola de Samba Império Serrano, no Rio de Janeiro, cujo tema foi: "E verás que um filho teu não foge à luta". Em suas últimas iniciativas, entre os anos de 1996/1997, apresentou uma proposta para a Agenda Social Rio 2004 ao Comitê Olímpico Internacional, quando a cidade do Rio de Janeiro empenhou-se em sua candidatura à sede olímpica, em 1996; lançou, via Ibase, a Agenda Social Rio 2000, tentativa de lutar pela melhoria da qualidade de vida no Estado do Rio de Janeiro, por meio da implantação das metas sociais por ele idealizadas; e, em julho de 1997, num encontro com empresários de todo o país, lançou a campanha de adesões ao Balanço Social, uma espécie de balanço financeiro onde os indicadores são os investimentos sociais feitos por empresas.

Ao longo de sua trajetória, publicou, ainda, diversos livros, artigos e ensaios, sempre com a mesma preocupação de criticar as estruturas que tornam a vida difícil e injusta para milhões de pessoas.

Declaração desesperada /descarada de amor...

HERÓI POR UM DIA
(depois de ouvir "Heroes", com Wallflowers. Música e letra do imenso David Bowie)


Corto a grama, periodicamente, quando tu pedes... Mas queria cortar cabeças hediondas, num só golpe rude e terrível, pra te proteger dos hunos todos, de todos os mongóis predadores, de forma sangrenta e final.

***

Lavo a louça, quando ela se amontoa na pia. Mas queria lavar de sangue teus inimigos, teus algozes, princesa, de forma tão radical que te prostrarias, desfalecida, ou quase, a meus pés, e trêmula, me implorarias – ao teu campeão – para jamais te deixar sozinha, à mercê dos bárbaros cruéis...

***

Batuco cotidianamente no meu teclado, que a vida é dura, e é preciso correr atrás da grana... Nos livros, vivo em meio a imagens de ossos fraturados, de cortes cirúrgicos, vísceras, fígados... E de fotografias impressionantes de cânceres e deformidades e outros malefícios, e de distúrbios que só existem, princesa, no imaginário dos especialistas e dos ultra-especialistas dessa medicina tão moderna e tão inútil, nos livros que traduzo, cotidianamente....

***

Ah, princesa, é só isso que faço... Mas queria mesmo é batucar noutros teclados. Com uma acha de lenha pesada e nodosa firmemente empunhada, queria avassalar teus pesadelos, e porrar firme tuas indecisões, e matar de susto teus medos e terrores que não consigo ainda compreender... E deixar desanuviada tua cabecinha loura, com tanto espaço vazio, querida, que eu, certamente, caberia todinho nela, e povoaria, herói sempre! tuas manhãzinhas enevoadas e o dia inteiro. E, nas noites enluaradas, provaria, safado e sorridente, dos teus prazeres... E quando a madrugadinha baixasse, e se, com sorte, estivesse chovendo tempestades coruscosas e raios fulgurantes, certamente tu acordarias assustada e me convocarias, aos prantos, pra afastar esses novos terrores que chegam quando estamos sós, no meio da chuvarada...

***

Ah, moça complicada, criança exigente, mulher maluca, queria não ser o lamentável Homem Comum dos Nossos Dias, esse patético ser aterrorizado por cartões de crédito e contas bancárias, pelas dívidas idiotas que fazemos todos nós, pelo terror abjeto que se introduz na gente se, temerosos, saímos à noite pelas ruas da cidade... Queria não depender de um empreguinho estúpido e tão pouco criativo. Queria não me trair. Queria não me perder – que há tanta coisa boa a fazer e a pensar! – nas bobagens triviais que consomem nossos dias: contas, despesas, a roupinha da moda, atritos babacas, rusgas idiotas, a necessidade de ostentar o que não somos, o eterno representar diante de outras pessoas, quase sempre tão idiotas como nós, tão perplexas como estamos... Não queria mostrar somente a pontinha do iceberg que sou eu. Queria me revelar todo, e queria que todos se revelassem – quantidades inteiramente conhecidas, ávidas de vida... Queria não ser esse cara previsível, que já não combate mais à sombra das ínúmeras setas lançadas pela vida, como combatiam, com um sorriso largo de escárnio os heróis guerreiros de outrora, à espera da morte honrosa...

***

E como já combati, co’a tua imagem pregada junto a meu peito, tua fotografia de menina sorridente e feliz, balançando junto com meu coração ! Ah, princesa, como eu queria de novo ser Herói apenas por mais um dia, pra que tu me percebesses novamente e, ao me enxergar, me olhasses no fundo, como olhavas antigamente. E visses em mim não essa casca velha que agora apresento, essa ruína, mas um espelho que refletia, milímetro a milímetro, segundo após segundo, tua própria insolência e fome de vida... Que teus olhos reconhecessem, ainda uma vez ! o guerreiro corajoso e bravo que sempre te conduzia, há milhões de anos atrás, pro universo recôndito e misterioso dele, pro seu mundo repleto de mágicos, e de fadas, de deuses e diabos, anjos e íncubos... Que descobrisses novamente, maravilhada e contente, faminta mas saciada, teu antigo celacanto, vigoroso e voraz, amante e amigo, teu antigo peixe-cavaleiro pra todas as horas dessa nossa vida...

Minha poesia pro fim-de-semana...

Via Láctea
(28 de novembro de 2001 - remake em 6 de julho de 2006.
Como a Paula Toller Amora me inspira!...)


Sempre que vejo a lua
vejo uma lua descaroçada
por mil olhares parelhos
de outros mais sonhadores.

Lembro então de tuas nádegas
(ou maçãs do rosto, ou joelhos)

Fico co’o pescoço duro, meu bem,
mas não paro de olhar...
(Lembro enfim dos teus seios,
luas gêmeas, únicas,
quase minhas)

Sempre que vejo a lua
o ar fica mágico co’a tua presença.
Ergo os olhos pro céu
estou na rua,
na madrugada...

Nada importa, então, nada:
não escuto os conselhos
e nem sigo as regras
de poetas outros como eu,
bissextos,
que divagam em outros sonhos,
outros pensares.

E nem me comove a sorte madrasta
(deles, poetas)
se proclamam aos quatro ventos
com voz límpida, resoluta, forte

a derrota da morte, e
a cura de todos os males
(os próprios, e os da humanidade)
co’a farmácia da paz, da canção, e do amor...

Pois tudo isso prá mim fica vazio, sem cor,
sem sentido, sem vida,
se não estás aqui, comigo, querida.
Bate então uma tristeza imensa,
uma saudade...

Mas quando olho mais pr’além, lá pr’o infinito
as dores minhas se vão pra outros ares, e
me invade aquela ternura antiga,

pacífica e contida,
autista, louca e solitária...

E quando enfim meus olhos alunecem
é que já quase tenho a ti;
finjo que sou teu astro-rei
e que és meu satélite.

Na minha cabeça aloucada
te tomo nos braços, nua,
e resplandeço só pra ti, moça celeste.

Então te possuo com ânsia,
com fome libertária,
e me orvalho contigo no meio da rua.

(Sou agora teu valente escudeiro,
teu guardião, o dono da rosa.)

E tudo some no meio
da tua nuvem de algodão,
macia, doce, cristalina, cheirosa...

E as casas da rua somem,
E a rua se vai num turbilhão... As vozes
já apenas sussurram, emudecem,
e o tempo pára.
Os poetas da noite e suas musas se vão,
e a vida inteira fica suspensa
no brilho dos teus olhos
emocionados.

Deito então teu corpo no éter frio, no ar,
na Via-Láctea, e brilho só pra você,
menina mágica dos meus sonhos,
minha pequena moça lunar...

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Cartoons Clássicos I


São cartoons atemporais; não exploram fatos isolados, ou personalidades - retratam os grandes mistérios da vida e da morte, com sutileza e finesse. Aparecerão nesse blog sem intervalo fixo, talvez semanalmente. Enjoy!
(contribuição do Alfredo Rainho, que me enviou um lote por email. Obrigado, amigo!)



Diário (atrasado) de Búzios

9 e 10 de novembro - Depois de um longo e tenebroso inverno, retornando ao meu diário... Pra começar, tudo como sempre - acordar, nescafé com torradas, margarina e queijo ralado por cima, coleta do cocô (os totós já estavam presos, pela Paulinha), lixo fora na lixeira de Peixinho, psicodrama com os 12 Grandes (os meus peixinhos), olhada geral no jardim-pomar-horta (hehehe), postagem de coisas no meu blog, começo da batalha. Ultimamente: o marido da Ana Flora foi esfaqueado gravemente, mas sai dessa. Fernando José vem passar o feriado aqui em Búzios - é meu filhão - e está indo bem no Santo Daime - e me convidou pra participar. Vai fazer finalmente a minha tatuagem. hehehe. no braço. Um tribal, que ele é bom nisso. Anteontem e ontem, estresse brabo - sumiram os documentos do carro e da Paulinha. Briga de Jo com Paulinha. Procurei horas aqui em Búzios (as duas estavam no Rio) e finalmente achei - em baixo do fax. Pode? Tudo em paz, sem vontade de fazer comida, jantei um mexido de salsicha, farofa pronta, ervilha em lata, e pimenta-abóbora bem picante. Com café. É dura a vida de um artista solitário... Depois, um pouco de tv, e fim de um dia muito proveitoso na traduça - 50 mil toques. Ciao...

... rir é o melhor remédio!... VIII e IX


Um segundo para colocar a camisinha

Um segundo. Esse é o tempo necessário para se colocar uma camisinha lançada esta semana na África do Sul. Com o sugestivo nome de Pronto, o preservativo tem apenas a embalagem diferente dos convencionais: após aberta, ela permanece presa ao anel, facilitando o manuseio. Segundo os fabricantes, quem "for devagar, levará três segundos para colocar" o produto . A nova camisinha surge como uma esperança no combate à Aids no país - que tem 5,5 milhões de pessoas infectadas pelo HIV - já que muitos habitantes admitem não usar preservativo por considerar que sua colocação costuma "cortar o clima" da relação. De acordo com o site do fabricante, o preservativo é manufaturado de acordo com padrões internacionais de qualidade e segurança e chega ao consumidor pelo mesmo preço do produto convencional. Por enquanto, só está disponível o modelo standard, mas a empresa promete lançar uma versão mais fina e outra reforçada no início de 2007. Ainda não há previsão de quando a novidade chegará a outros países. As queixas a respeito do uso de preservativos não são exclusivas dos africanos: uma pesquisa realizada no ano passado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia revelou que 80% dos brasileiros não têm o hábito de usar camisinha. O medo de prejudicar a ereção foi alegado por 14% dos entrevistados, e 9% admitiram se atrapalhar ao colocar a proteção.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

A consciência da imagem / Entrevista com Nise da Silveira





- Como foi criado o Museu do Inconsciente?
- Por quê, vocês me perguntarão, o museu é importante? Porque ele reúne a situação do mundo interno dos indivíduos que se afastaram do mundo real e vivem num outro mundo. E se há uma maneira de conhecermos algo desse outro mundo é certamente através da imagem pintada. São documentos vivos.
- Como a senhora chegou a essa conclusão?
- No princípio o ateliê de pintura era um setor do centro de terapia ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II. Mas depois fui vendo que através da pintura ficava sabendo de coisas que jamais saberia em conversas orais. E aí passei a estudar essas manifestações e a organizá-las.
- Esse mundo que a gente descobre através da arte, através da pintura...
- Não diga arte. Eu não tenho nenhuma intenção artística. Temos a intenção de pesquisa. As imagens falam uma linguagem própria. Uma linguagem principalmente mítica, porque vêm das profundezas da psique.
- E esses trabalhos sempre ajudaram a senhora a fazer um diagnóstico?
- Ajudaram sobretudo a compreender o estado emocional daquele indivíduo que está numa situação tão desagradável que é a permanência num hospital psiquiátrico. Por melhor que seja, é péssima.
- E de que forma isso ajuda no tratamento?
- Se eu entendo a pessoa, posso ajudá-la através da relação pessoal com essa pessoa, sobretudo através de uma relação em que exista afeto e compreensão.
- Nessa manifestação através da pintura a senhora detectava traços muito semelhantes entre os doentes ou cada um mostra um mundo completamente diferente?
- Cada um tem o seu mundo, como o meu mundo é diferente do seu. Mas há muita coisa em comum. Todos nós temos amizades, temos antipatias, tudo isso. Horas e horas trabalhamos em cima daquelas imagens, elas contam histórias, meio dissociadas, não falam assim como Machado de Assis, um grande escritor, mas mesmo assim contam histórias, que vão me dizer alguma coisa. Se você está contrariada, triste, se consegue encontrar algum amigo com quem você desabafe, você se alivia.
- Isso é um processo?
- É. Adelina (uma das doentes citadas em seu livro Imagens do Inconsciente) gostava de um homem, o que pode acontecer a qualquer mulher. A mãe proibiu. Adelina era uma mulher simples do interior do estado do Rio. Passou uns dias triste, a família pensou que ela estava conformada, mas era início da cisão. Isso acontece todo dia. Hoje as mulheres são mais rebeldes. Ela reprimiu a proibição da mãe. Então passou a ver uma mãe monstruosa e a desenhá-la assim. O inconsciente é de uma riqueza criativa imensa, com imagens extraordinárias.
- Todos os pacientes do centro psiquiátrico...
- Não diga a palavra paciente que me irrita muito.
- Então como a senhora os chama?
- Pelo nome. São pessoas. Recentemente me revoltou muito a entrevista desses rapazes, os jovens que queimaram um índio (em Brasilia). Se fosse um mendigo, disseram, tudo bem.
- O que se passa na cabeça de um adolescente que faz com que ele seja capaz de uma barbárie tamanha?
- Sei lá...(longo silêncio) Eles devem ter o predomínio, na construção da psique deles, do mal. Todos nós temos uma parcela de mal. Não somos bonzinhos cem por cento.
- Alguns inibem o mal que existe em todos e outros não?
- Inibimos ou projetamos. O mal está sempre no outro. A gente sempre acha que não está na gente. Isso pode acontecer a nível do indivíduo e a nível de nação.
- A senhora acha que boa parte da sociedade em que vivemos está impregnada pelo mal?
- O mal está predominando no Brasil.
- A senhora acha que para uma psiquiatria, uma pessoa que estuda a psique humana, o caso desses rapazes é desafiador?
- É desafiador. Deixa a gente perplexa. Estou lendo um livro apaixonante sobre gatos. Se um gato pequeno está com fome se esconde num porão, não sei onde, onde há um ninho de andorinhas. Ele está há dias sem comer, cai uma andorinha, ele pega, pensa em matar para comer, mas não tem coragem, então diz ao gato pai essa coisa alucinante: ensina-me a matar. Ele não sabe matar.
- Voltando ao museu. Em reportagem publicada recentemente no Caderno B falava-se de condições hospitalares supostamente precárias em que estaria vivendo Fernando Diniz. O que a senhora acha disso?
- Não pensem que um hospital particular seria tão melhor assim.
- Mas e um quarto reservado para ele?
- Um quarto reservado, onde ele ficasse isolado, seria pior para ele. Ele tem uma casa reservada, de dois andares, um que é o ateliê dele, e outro com o quarto de dormir.
- A reportagem acabou gerando uma polêmica maior, talvez uma questão filosófica sobre a arte e o artista.
- Filosófica não. Mais ambiciosa. Essa história de vender os quadros, no sentido geral, é o mesmo que ter uma série de imagens e tirar uma. Aí não se entende mais nada.
- A senhora acha fundamental que o acervo preserve todas as suas imagens para continuar o desenvolvimento do trabalho?
- Imagino que Champollion se suicidaria, se, tentando decifrar a linguagem egipcia, lhe tirassem um hieróglifo.
- As pessoas que defendem a posição de se vender os quadros argumentam que hoje há meios tecnológicos que permitem a preservação da imagem das obras num computador.
- Primeiro de tudo, não conheço esses objetos, não conheço nem mesmo esse bichinho que vocês têm aí parecido com uma barata (aponta para o gravador).
- Quando as autoridades reconheceram a importância do seu trabalho?
- Nunca. Ainda não reconheceram.
- E no meio psiquiátrico?
- Muito menos. Alguns, apenas. Em 50 anos, apenas 70 psiquiatras visitaram o Museu do Inconsciente.
- Por que a senhora acha que acontece isso?
- Porque eles foram formados de outra maneira. Muitos acham ótimo aplicar eletrochoques ou outras coisas semelhantes. Acham que são pacientes, podem ser jogados daqui para ali, transferindo de um hospital para outro. Eu sou contra isso.
- A senhora diz que os psiquiatras que defendem terapias com eletrochoques não conseguem se livrar da formação que tiveram. A sua formação não foi muito diferente. O que houve?
- Eu sempre fui rebelde de natureza. Fui filha única, sempre fiz o que queria.
- A senhora veio para o Rio sozinha?
- Vim sozinha.
- Com que idade?
- Com 15 anos. Meu pai morreu quando eu me formei, e eu não aguentei ficar em Maceió, meu pai era como eu, não ligava se tinha casa ou não tinha nada, aí vim para cá. Minha mãe ficou na casa do pai dela. Depois ela veio.
- Como a senhora decidiu estudar psiquiatria?
- Primeiro estudei medicina. Fui a única mulher de um grupo de 156 homens. Aí comecei a frequentar a clínica neurológica.
- A senhora era muito assediada na faculdade?
- Não, eu era muito brava. Não propriamente brava...era uma lutadora.
- Quais foram os momentos mais difíceis no desenvolvimento do seu trabalho?
- Todos foram muito difíceis para mim. Eu investia contra eles. Gosto dos desafios.
- A senhora acompanha o trabalho do Museu ainda hoje?
- Depois que eu tive a fratura na perna ficou mais difícil...
- (Ela mostra desenhos de círculos feitos por um doente) Como a senhora explica esses desenhos?
- A questão é: dentro daquela idéia de que o louco - a palavra científica é esquizofrenia - é uma pessoa partida, em pedaços, como é que ele via tão bem o símbolo da unidade, que é o círculo? Essa interrogação estava sempre na minha cabeça. Eu estudava psiquiatria. Esquizo, no grego quer dizer separado, partido, mas volta e meia apareciam círculos nos desenhos. Então, como sou atrevida, escrevi para Jung, perguntando se eram mandalas os círculos que os doentes pintavam. Levei um grande susto de felicidade quando recebi uma carta da secretária de Jung dizendo que o professor agradecia muito as mandalas. A partir daí comecei a trabalhar com os conceitos de Jung.
- Foi assim que Jung passou a influenciar seu trabalho?
- A psicologia junguiana entrou no Brasil através da pintura dos doentes. E a mandala simboliza o potencial autocurativo, se a pessoa vive um estado de confusão mental, de dissociação, o inconsciente profundo está mandando o símbolo dessa unidade. Então, a psique, mesmo do esquizofrênico, tem um potencial autocurativo. Isso no começo da década de 50 realmente era uma abertura nova. Como que essas forças autocurativas podem se manifestar? Principalmente através do afeto. Se uma pessoa é trancafiada num hospital psiquiátrico, dificilmente essas forças podem se manifestar. Mas através do afeto, elas se manifestam.
- A senhora acha que tem seguidores fora do Brasil?
- Não diria seguidores. Diria relações de amizade, com psiquiatras estrangeiros.
- E a senhora passou a se corresponder com Jung?
- Corresponder propriamente não, mas tive uma entrevista pessoal com ele, eu me queixava das dificuldades, e ele me disse: você estuda mitologia? Eu disse não. E ele então explicou: o inconsciente fala a linguagem da mitologia. Aí comecei a estudar mitologia. Se eu não tivesse me aberto para a mitologia não teria entendido, por exemplo, a mulher-vegetal da Adelina.
- E o que significa isso, a mulher transformada em vegetal?
- É o mito de Dafne. Ela foge e pede à mãe para transformá-la em vegetal. Se eu não estivesse atenta à mitologia não poderia entender...
- É impressionante como essa ligação entre o mito e o inconsciente pode ser tão bem expressa numa pintura...
- É porque a linguagem do inconsciente é a linguagem mítica. E é por isso que quando chega uma pessoa e diz: que bonita figura (refere-se aos quadros do museu), vamos tirá-la daqui para vender e comprar sanduíches de presunto para distribuir como lanches aos doentes. Eu me oponho.

Entrevista dada para Regina Zappa e Nani Rubin
para o Jornal do Brasil, em 4 de maio de 1997

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

fotopiada... by fnax

... rir é o melhor remédio!... VII

Imagens do Inconsciente / Loucos somos nós...







Carlos Pertuis
Filho de imigrantes franceses, Carlos Pertuis nasceu em 1910. Foi internado aos 29 anos quando teve uma visão cósmica do “planetário de Deus”. Algumas pinturas que produziu durante as internações foram analisadas por Jung no II Congresso de Psiquiatria, realizado na Suíça em 1957. A seguir, algumas de suas obras.















Médicos Sem Fronteiras: uma visão humanitária do Mundo

Saúde mental: parte integrante da ajuda humanitária

Experiência de MSF em situações de conflito mostrou a importância do desenvolvimento de tratamento de estresses pós-traumáticos e outras desordens.

Durante mais de 15 anos, Médicos Sem Fronteiras (MSF) desenvolveu programas de saúde mental em mais de 40 países em contextos de crises: conflitos, catástrofes naturais, períodos de fome, epidemias ou pandemias, uma experiência que fez com que aprendesse que o tratamento psicológico e psicossocial deve ser parte integral da ação humanitária.

Os projetos de ação médica de MSF sempre têm associados, por conta da própria natureza, um componente psicológico resultante da mera interação com o pacientes, sejam eles pessoas que vivem em contextos de violência, de desastre natural ou que estão sem assistência. É óbvio o impacto da vida do paciente em condições de extrema necessidade ou de ameaça física em sua saúde mental.

MSF ofereceu assistência psicológica pela primeira vez em 1988 às vítimas do terremoto de Spitak, na Armênia. O primeiro programa de saúde mental propriamente dito foi aberto em Gaza, em 1990, para atender às vítimas da Intifada e reconstruir seus mecanismo de defesa e auto-ajuda. Na época, já ficou claro que em conflitos crônicos como este não se pode falar de cura já que os traumas não desaparecem.

Ainda hoje, em Hebron (Cisjordânia), 60% dos casos atendidos por MSF estão relacionados a incidentes violentos.

Nesse projeto, que beneficia 400 pessoas, 25% dos pacientes registrados têm entre três e 14 anos de idade. Além disso, uma em cada cinco pessoas que recebem atenção psicológica são crianças com menos de cinco anos. Os sintomas mais comuns são alopécia, incontinência, medo, agressividade, depressão, ansiedade ou estresse. Tanto em Hebron quanto em Nablus (Gaza), MSF desenvolve projetos específicos de saúde mental através de visitas domiciliares e atendimento individual por parte de equipes formadas por psicólogos, trabalhadores sociais e médicos.

Em outros contextos, os programas têm um enfoque mais amplo, de tipo psicossocial, focado menos no apoio individual e priorizando uma combinação de atividades sociais, psicológicas, legais e médicas. De fato, as conseqüências da violência, do deslocamento, de um terremoto ou de uma doença associada à morte (Aids, febres hemorrágicas, etc) são sentidas não só individualmente, mas por toda a sociedade: atos de violência, violência doméstica, desestruturação dos núcleos familiares, das redes sociais, entre outros etc.

Na Colômbia, contexto no qual três milhões de pessoas se viram obrigadas a abandonar seus locais de origem, os testemunhos recolhidos refletem um ciclo de violência sem fim (assassinatos, seqüestros, desaparecimentos...), onde o deslocamento é perigoso e voltar para casa não é uma opção válida. Este país é, sem dúvidas, o exemplo mais claro de um contexto de emergência onde a saúde mental é bastante esquecida: em algumas províncias, há apenas um psiquiatra disponível para oferecer o atendimento necessário.

No âmbito dos programas psicossociais, uma das lições aprendidas se refere à integração dos mecanismos tradicionais de saúde, como os curandeiros e as parteiras. Quase sempre eles são a primeira opção a quem as vítimas recorrem, por exemplo, em casos de violência sexual ou em casos de problemas físicos creditados culturalmente a uma origem espiritual. Tudo isso está diretamente relacionado à estigmatização do doente.

Como foi constatado em um recente estudo realizado por MSF nos campos de deslocados de Shangil Tobaya (Darfur), uma doença muito freqüente é o chamado mashkul, definido no país como "a profunda preocupação de mentes e corações com o que passou e com o que acontecerá". Os sintomas são uma grave falta de energia e concentração, a diminuição da capacidade de tomar decisões, assim como problemas para dormir e de memória. O mashkul afeta os hábitos de higiene, alimentação e saúde necessários para a sobrevivência.

Devido a tudo isso, é evidente que os cuidados com a saúde mental devem ser incluídos nos programas nutricionais e, de forma mais ampla, na atenção médica humanitária em geral. Os dados recolhidos em Darfur comprovam: 70% dos entrevistados apresentavam graves somatizações de ansiedade e de estresse, que justificavam a enorme quantidade de casos de dores físicas sem explicação médica e a razão pela qual quase um terço das consultas médicas realizadas por MSF em 2005 se encaixavam na categoria diagnóstica "outros".

Além disso, é necessário reconhecer que as conseqüências dos acontecimentos traumáticos são sentidas a longo prazo porque, mesmo quando a urgência estritamente médica acaba, esses programas continuam a ser necessários. No território paquistanês da Cachemira, um ano depois do terremoto, MSF continua a oferecer atendimento psicológico a pacientes com estresse pós-traumático, fobias, depressão e outras desordens de conduta.

Por fim, a questão não é se a saúde mental deve ser levada em conta ou não, mas de que forma e em qual momento. Neste sentido, os desafios enfrentados pela comunidade humanitária são muitos: como ter acesso às vítimas de violência sexual quando isso é considerado um assunto 'privado'? Como criar um projeto médico para responder às necessidades de uma população traumatizada? Quais são as melhores ferramentas para sistematizar essa atenção? Em que situações saúde mental deve ser prioritária?

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Rock Legends I






Jethro Tull
album: Acqualung

Estoques de peixe podem acabar até 2048


Richard Black, BBC




Estoques de pesca já caíram em cerca de 33%, diz estudo

Recife de coral

Um estudo divulgado nesta quinta-feira indica que não haverá praticamente mais nada para pescar nos oceanos até o ano de 2048, caso a atual taxa de mortalidade das espécies marinhas continue do jeito que está hoje.

De acordo com o levantamento, feito por uma equipe internacional de cientistas e publicado na revista científica Science, os estoques de pesca já caíram em cerca de 33% e a taxa de eliminação da biodiversidade marinha continua aumentando.

No entanto, os cientistas acreditam que ainda é possível reverter a previsão, caso sejam ampliadas as áreas de proteção.

“Nós exploramos os oceanos esperando e supondo que haverá sempre uma nova espécie para ser explorada depois que acabarmos completamente com a última”, disse o cientista Boris Worm, da Universidade Dalhousie, do Canadá, que coordenou a pesquisa.

“O que estamos ressaltando aqui é que a quantidade de peixes nos mares é finita; nós já passamos por um terço, e vamos passar pelo resto.”

Alerta


Outro cientista envolvido no projeto, Steve Palumbi, da Universidade de Stanford, também faz o seu alerta: "Se nós não mudarmos fundamentalmente a forma como administramos o conjunto das espécies marítimas, este século será o último século com frutos do mar na natureza".

O estudo, do qual participaram cientistas de diversas instituições da Europa e das Américas, foi feito com base na análise dos índices de pesca em alto-mar, da pesca praticada em determinadas regiões costeiras e de experimentos feitos em ecossistemas pequenos e em outros onde a pesca é restrita ou protegida.

De acordo com o levantamento, em 2003, 29% das instalações pesqueiras em alto-mar estavam em estado de colapso, o que significa que a sua produção havia caído para menos de 10% do original.

Nem mesmo embarcações maiores, redes mais eficazes e novas tecnologias para encontrar peixes conseguiram aumentar o volume de pescados. Na realidade, houve uma queda de 13% no total pescado no mundo entre 1994 e 2003.

Registros históricos da pesca praticada em áreas costeiras da América do Norte, Europa e Austrália também revelam um declínio não só na quantidade de peixes, como em outros tipos de organismos marinhos.

O estudo também alerta que a tendência é que a perda da biodiversidade cause mais fechamentos de praias, inundações e disseminação de algas potencialmente nocivas.

Experimentos feitos em ecossistemas relativamente pequenos mostram que a redução da biodiversidade tende a gerar uma diminuição no tamanho e na qualidade dos estoques locais. Isso sugere que a perda de biodiversidade está por trás do declínio em estoques pesqueiros observado em estudos maiores.

Ao analisar áreas em que a pesca foi banida ou severamente restrita, os observadores concluíram que a proteção pode recuperar a biodiversidade naquela área e restaurar populações de peixes.

"A imagem que eu uso para explicar por que a biodiversidade é tão importante é que a vida marinha é como um castelo de cartas", disse Worm. "Todas as partes são integrantes da estrutura; quando você remove partes, particularmente na base, prejudica tudo que está no topo e ameaça a estrutura inteira."

Danos cumulativos


Segundo Worm, as espécies marinhas estão fortemente vinculadas umas às outras, "provavelmente mais do que na terra".

Em vez de atribuir os danos a uma atividade particular, como a pesca excessiva, a poluição ou a perda de hábitats, o estudo destaca os danos cumulativos dessas atividades.

Uma conclusão-chave, no entanto, é a necessidade de proteger mais áreas oceânicas.

Mas o diretor do programa marinho global, Carl Gustaf Lundin, diz que a extensão da proteção dos oceanos não é a única questão para conter a queda dos estoques.

"Você também tem de ter uma boa administração dos parques marinhos e boa administração das pesqueiras. Claramente, a pesca não deveria destruir o ecossistema. A pesca com rede de arrasto (que leva tudo que está no fundo do mar) é um bom exemplo de algo que destrói o ecossistema."

O especialista também defende a proteção da biodiversidade como forma de reverter o processo, mas Boris Worm, um dos autores do estudo, se diz cético quanto à vontade política para tomar medidas como estabelecer limites para a pesca.

Worm cita o caso da região de Grand Banks, no leste do Canadá, onde os estoques de bacalhau se esgotaram.

"Você tem consenso científico e nada acontece. É um exemplo triste; e o que aconteceu no Canadá deveria ser um aviso porque agora entrou em colapso e não volta".

Da mesma forma, diz o pesquisador, os alertas para disciplinar a pesca de bacalhau no Mar do Norte estão sendo ignorados.

(... é isso aí. Se não cuidar, vai faltar. Papauummowmow dixit.)