HERÓI POR UM DIA
(depois de ouvir "Heroes", com Wallflowers. Música e letra do imenso David Bowie)
Corto a grama, periodicamente, quando tu pedes... Mas queria cortar cabeças hediondas, num só golpe rude e terrível, pra te proteger dos hunos todos, de todos os mongóis predadores, de forma sangrenta e final.
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Lavo a louça, quando ela se amontoa na pia. Mas queria lavar de sangue teus inimigos, teus algozes, princesa, de forma tão radical que te prostrarias, desfalecida, ou quase, a meus pés, e trêmula, me implorarias – ao teu campeão – para jamais te deixar sozinha, à mercê dos bárbaros cruéis...
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Batuco cotidianamente no meu teclado, que a vida é dura, e é preciso correr atrás da grana... Nos livros, vivo em meio a imagens de ossos fraturados, de cortes cirúrgicos, vísceras, fígados... E de fotografias impressionantes de cânceres e deformidades e outros malefícios, e de distúrbios que só existem, princesa, no imaginário dos especialistas e dos ultra-especialistas dessa medicina tão moderna e tão inútil, nos livros que traduzo, cotidianamente....
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Ah, princesa, é só isso que faço... Mas queria mesmo é batucar noutros teclados. Com uma acha de lenha pesada e nodosa firmemente empunhada, queria avassalar teus pesadelos, e porrar firme tuas indecisões, e matar de susto teus medos e terrores que não consigo ainda compreender... E deixar desanuviada tua cabecinha loura, com tanto espaço vazio, querida, que eu, certamente, caberia todinho nela, e povoaria, herói sempre! tuas manhãzinhas enevoadas e o dia inteiro. E, nas noites enluaradas, provaria, safado e sorridente, dos teus prazeres... E quando a madrugadinha baixasse, e se, com sorte, estivesse chovendo tempestades coruscosas e raios fulgurantes, certamente tu acordarias assustada e me convocarias, aos prantos, pra afastar esses novos terrores que chegam quando estamos sós, no meio da chuvarada...
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Ah, moça complicada, criança exigente, mulher maluca, queria não ser o lamentável Homem Comum dos Nossos Dias, esse patético ser aterrorizado por cartões de crédito e contas bancárias, pelas dívidas idiotas que fazemos todos nós, pelo terror abjeto que se introduz na gente se, temerosos, saímos à noite pelas ruas da cidade... Queria não depender de um empreguinho estúpido e tão pouco criativo. Queria não me trair. Queria não me perder – que há tanta coisa boa a fazer e a pensar! – nas bobagens triviais que consomem nossos dias: contas, despesas, a roupinha da moda, atritos babacas, rusgas idiotas, a necessidade de ostentar o que não somos, o eterno representar diante de outras pessoas, quase sempre tão idiotas como nós, tão perplexas como estamos... Não queria mostrar somente a pontinha do iceberg que sou eu. Queria me revelar todo, e queria que todos se revelassem – quantidades inteiramente conhecidas, ávidas de vida... Queria não ser esse cara previsível, que já não combate mais à sombra das ínúmeras setas lançadas pela vida, como combatiam, com um sorriso largo de escárnio os heróis guerreiros de outrora, à espera da morte honrosa...
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E como já combati, co’a tua imagem pregada junto a meu peito, tua fotografia de menina sorridente e feliz, balançando junto com meu coração ! Ah, princesa, como eu queria de novo ser Herói apenas por mais um dia, pra que tu me percebesses novamente e, ao me enxergar, me olhasses no fundo, como olhavas antigamente. E visses em mim não essa casca velha que agora apresento, essa ruína, mas um espelho que refletia, milímetro a milímetro, segundo após segundo, tua própria insolência e fome de vida... Que teus olhos reconhecessem, ainda uma vez ! o guerreiro corajoso e bravo que sempre te conduzia, há milhões de anos atrás, pro universo recôndito e misterioso dele, pro seu mundo repleto de mágicos, e de fadas, de deuses e diabos, anjos e íncubos... Que descobrisses novamente, maravilhada e contente, faminta mas saciada, teu antigo celacanto, vigoroso e voraz, amante e amigo, teu antigo peixe-cavaleiro pra todas as horas dessa nossa vida...
Meus sites ... dá uma olhadinha neles.
Então, meu blog, o Buzios Papers, será um modo - um caminho - de expor idéias, coisas que faço, impressões sobre o que está rolando pelaí, notícias que me balançam mais do que o normal, e de papear eletronicamente com os amigos... É isso aí. Agora, eu. Na Arte, faço de tudo um pouco: desenho, pinto, faço cerâmica. Cometo minhas poesias e contos. Sou tradutor de artigos científicos e livros da área médica. Fiz algumas exposições de cerâmica e desenhos no Rio de Janeiro, Niterói, Búzios, Rio das Ostras e São Paulo. Vivo aqui no paraíso de Búzios há sete anos... na Praia Rasa. Rubronegro doente. Amo o Rock Clássico. E o Carnaval. Um enorme orgulho profissional: ter sido Diretor Carnavalesco da Escola de Samba Combinados do Amor, a gloriosa agremiação do bairro do Caramujo, em Niterói... Meu bloco carnavalesco para sempre: "Filhos da Pauta", também de Niterói. Sou da noite, sou festeiro, e meu Triângulo das Bermudas é o eixo Rio - Niterói - Búzios. Objetivo maior: viver o momento presente, todos os momentos da minha vida.
domingo, 12 de novembro de 2006
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