Então, meu blog, o Buzios Papers, será um modo - um caminho - de expor idéias, coisas que faço, impressões sobre o que está rolando pelaí, notícias que me balançam mais do que o normal, e de papear eletronicamente com os amigos... É isso aí. Agora, eu. Na Arte, faço de tudo um pouco: desenho, pinto, faço cerâmica. Cometo minhas poesias e contos. Sou tradutor de artigos científicos e livros da área médica. Fiz algumas exposições de cerâmica e desenhos no Rio de Janeiro, Niterói, Búzios, Rio das Ostras e São Paulo. Vivo aqui no paraíso de Búzios há sete anos... na Praia Rasa. Rubronegro doente. Amo o Rock Clássico. E o Carnaval. Um enorme orgulho profissional: ter sido Diretor Carnavalesco da Escola de Samba Combinados do Amor, a gloriosa agremiação do bairro do Caramujo, em Niterói... Meu bloco carnavalesco para sempre: "Filhos da Pauta", também de Niterói. Sou da noite, sou festeiro, e meu Triângulo das Bermudas é o eixo Rio - Niterói - Búzios. Objetivo maior: viver o momento presente, todos os momentos da minha vida.

:-)

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

você está de acordo com a Igreja Católica, que proíbe o uso de métodos anticoncepcionais (camisinha, etc.)?
Pelo sim, pelo não, aí vai o método da tabelinha - Esse a Igreja aceita...


Método da Tabelinha, ou de Ogino-Knaus


É um método que calcula pela contagem dos dias, o período em que a mulher estará fértil, ou seja, o período em que ela ovulará. Neste período ela deve evitar ter relações sexuais ou tê-las usando a camisinha para não correr o risco de engravidar.
• Este método necessita de controle constante das datas de menstruação que devem ser anotadas, em calendário, todos os meses, por um período mínimo de 6 (seis) meses, para conhecer o ciclo menstrual. Esse método não pode ser feito quando a mulher está usando qualquer contraceptivo hormonal, que faz alterar o ciclo menstrual e fértil da mulher.
Nos 2 primeiros anos de início de menstruação não deve ser um método adotado por adolescentes, pois elas ainda estão com o ciclo menstrual inconstante e em fase de regularização.

Como utilizar:

• A mulher deve marcar num calendário o dia que começa sua menstruação por 6 ou 7 meses. Dessa forma poderá contar o número de dias de seu ciclo menstrual, ou seja, quantos dias se passam entre uma menstruação e outra.
• Esse número de dias dividido por 2, indicará o meio do ciclo. Assim, se a mulher tiver um intervalo entre as menstruações de 30 dias, o meio de seu ciclo será com 15 dias do início da menstruação, se seu ciclo for de 34 dias, o meio será com 17 dia, se seu ciclo for de 28 dias, o meio será 14 dias, e assim por diante. Cada mulher tem um ciclo diferente.
• Então a mulher deve marcar em um calendário, contando os dias e somando os dias do seu ciclo, as datas em que deverá menstruar novamente. Também deve marcar em outra cor a data de meio do ciclo e sublinhar os três dias antes e depois desse meio de ciclo.
• Nesses 7 dias, os 6 que sublinhou, mais a data de meio do ciclo, não deve ter relações sexuais, ou tê-las usando camisinha, pois estará no período fértil. Nesse período o óvulo está sendo liberado e pode ser fecundado gerando a gravidez. Assim, todo mês ela poderá saber quando estará em risco de gravidez.

Vantagens:
• Este método favorece o conhecimento dos períodos de menstruação e fertilidade de cada mulher.
• Não apresenta efeitos colaterais.

Desvantagens:
• Este método exige disciplina da mulher nas anotações mensais de seu ciclo menstrual e necessita de abstinência ou uso de camisinha nos dias férteis.
• Não deve ser utilizado no período em que a mulher estiver amamentando, pois a menstruação desregula a ovulação e o período fértil.
• Este método necessita de treinamento para cálculo do período fértil por no mínimo 6 meses para que não haja tanto risco de gravidez,
• Não previne contra as DST/Aids.
• Não é recomendado para adolescentes, pois pode ocorrer falhas e gravidez.

domingo, 19 de novembro de 2006

Mulheres maravilhosas I - Marina Lima

O CORNO

O sujeito chega em casa mais cedo que o normal, de mansinho, e olhando pelo buraco da fechadura do quarto, vê a mulher dele na cama com outro... Tirou o revólver da cintura, armou o gatilho e entãoo já ia entrando no quarto e metendo bala nos dois, quando parou pra pensar e foi percebendo como a sua vida de casado havia melhorado nos últimos tempos. A esposa já não pedia dinheiro pra nada, nem para comprar vestidos, jóias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou uma sandalinha da moda. Os meninos mudaram na escola pública do bairro para um cursinho superchique, na zona Sul. Sem contar que a mulher trocou de carro, apesar dele estar há quatro anos sem aumento e ter cortado a mesada dela. E o supermercado então, nem se fala, eles nunca tiveram tanta fartura quanto nos últimos meses. E as contas de luz, água, telefone, internet, celular e cartão de crédito, fazia tempo que ele nem ouvia falar delas. E a mulher era mesmo um avião. Coisa de louco.
Guardou a arma na cintura e foi saindo devagar, para não atrapalhar os dois. Parou na porta da sala e disse prá si mesmo:
- O cara paga o aluguel, o supermercado, a escola das crianças, as contas da casa, o carro, o shopping, todas as despesas e eu ainda vou pra cama com ela todos os dias... E fechando a porta atrás de si, com todo o cuidado, concluiu:

- PORRA! CORNO É O CARA!!!

sexta-feira, 17 de novembro de 2006



INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA EM BÚZIOS
Entrevista com Bo Montenegro, cineasta

Fernando Naxcimento
Na foto: Fernando Naxcimento, Bo Montenegro, e Marcello Moraes
Foto de Gil Assis

Bo Montenegro,
cineasta e produtor, diretor de “Buzioswood”, nos recebeu em sua casa para falar sobre indústria cinematográfica em nossa cidade. Participaram também dessa conversa Shana Genaro, produtora e fotógrafa de cinema, Gil Assis, da Takahouse e Marcello Moraes, artista plástico. Como a casa é de cineasta, a entrevista toda foi filmada, e será editada, constituindo um documento importante para o entrevistador e para o Jornal Primeira Hora. O filme “Buzioswood” terá seu lançamento no Festival de Cinema de Búzios, às 18:00, nos dias 25 e 26 de novembro, no Gran Cine Bardot.

Pergunta: Me interessa muito saber sobre o cineasta Bo Montenegro. E suas impressões sobre a platéia de cerca de 200 pessoas que compareceram no Pérola, semana passada, numa noite chuvosa e com várias festas rolando pela cidade, para assistir o making-of do “Buzioswood”. O que você faz, porque o cinema, porque o quixotismo todo da Buzioswood, e porque aqui em Búzios...
Bo Montenegro – Pergunta difícil... Morei nos EUA durante 20 anos, e Búzios me lembrava muito a Califórnia, essa coisa de praia, etc. Tentei reviver aquela coisa gostosa que vivi na infância. Vim de uma casa onde o cinema era apreciado extremamente, com um pequeno estúdio. Fui criado no meio do cinema. Tive uma carreira bastante rápida como ator no Tablado da Maria Clara Machado. Então, fui estudar cinema nos EUA. Me formei pela UCLA. Fiz também o Actor’s Studio, e aprecio demais a linha do Francis Ford Copolla e do Martin Scorcese. Estudei com pessoas ligadas a esses dois diretores, e também ao Robert Altman, diretor do clássico “M.A.S.H.”. Estudei direção de cena. Como sou fruto de “palco”, pra mim essa coisa de palco é muito levada a sério no ensino do cinema.
P – Aqui em Búzios, você não conhecia ninguém. E , em corte rápido, começa a fazer filmes. Sem grana, de repente você faz um projeto pioneiro. Me lembrei da “arte povera”, em que o diretor pega gente comum, sem experiência, e saem filmes. Com essa turma toda, como é que a coisa sai do plano onírico e entra para um produto acabado que pode virar uma marca para Búzios, uma indústria não-poluente e charmosa, com gente vivendo dela, com empregos, com empresas e prefeituras contratando filmes?
Bo Montenegro – A pergunta tem a ver com a magia. O primeiro contato real com o cinema é aquela coisa de pipoca na boca, o escurinho do cinema – o cinema apaixona, envolve. Sua pergunta carrega tudo o que representa minha idéia hoje. Assim, um dia cheguei para o Bebeto Karolla e seu grupo de teatro amador, e perguntei: “Vocês querem fazer cinema?”

(para o resto da entrevista, veja semana que vem no Jornal Primeira Hora.)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

A arte de Guy Forest

Personalidade Universal



DALAI LAMA Tenzin Gyatso, monge e doutor em filosofia budista, Prêmio Nobel da Paz, agraciado com mais de 100 títulos honoris causa, líder e mentor do povo tibetano, 14º Dalai Lama, é uma das vozes mais lúcidas e comprometidas com a paz, o diálogo e a compaixão no cenário mundial contemporâneo. Pesquisador infatigável, abriu as portas para o encontro da ciência com a espiritualidade quando, em 1987, reuniu-se durante uma semana com cinco cientistas ocidentais para debater a proximidade entre o budismo e as ciências cognitivas. A partir dali criaram-se centros e fóruns internacionais onde a experiências espiritual é estudada e acolhida como aspiração genuína de um saber que revela novos espaços de consciência e expressão.

Cidadão planetário, manifesta especial interesse pelas pontes, articulações, sinapses, desafiando ortodoxias que retardam o exercício da vocação humana para o cuidado mútuo, a convivialidade e a cooperação. Nesse sentido apela para que cada um de nós aprenda a trabalhar em benefício não só de si próprio sua família ou nação, mas em prol da humanidade como um todo. A responsabilidade é a chave para a sobrevivência do humano e é a melhor garantia para implementar os valores universais e a paz.

... rir é o melhor remédio!... XII - XIV



Poesia para um dia de chuva

Solidão
(nesse momento, está chovendo demais em Búzios - o que não é a cara da minha aldeia... Um pouco triste, viajando no que poderia ter sido - mas felizmente não foi.)

Vidas atrás, tu e eu:
moleques transviados.

A camisa listradinha da moda,
e a descoberta da impunidade,
sem medo, bêibe, sem maldade.
A camisinha grudada em ti
e teus seios-meninos...

O CD não descolado
apesar do plano perfeito,
e o olhar, meio sem jeito, assim,
no CD do Raul Seixas...

O banho de perfumes
que me destes, e os cheiros vizinhos
sensuais, e a pressão da mass-mídia,
demais, bêibi, demais.

E nós dois na cachoeira
na nossa Marombassanta
e o baixa-santo teu e meu,
nosso batismo safado
de cânhamo e fluidos
e suor e patchouli...

O carro quebrado madrugadinha,
na mata fechada. O incenso nas mãos
e os risos de rebrilho, e o namoro-arrochado
no ponto.
Suados, quentes, tu sorris, eu tonto.
O carro nosso, deusa,
pra sempre inútil...

E o desejo nosso fútil
de morar por lá, bichos-do-mato.

No ônibus pra algum lugar,
de novo pé-na-estrada,
no ato,
mochilas, canequinhas,
bolsas a tiracolo
o imprescindível cobertor
quadriculado.

E eu, alucinado
com teu medo fake de seres assaltada
por teu vândalo, n’alguma curva
mais escurinha – o teu desejo
confesso, maroto, safado
de seres violada, agorinha,
naquele berço fofo
de flores-gilquinhas...

***
A camisinha grudada,
o CD, o banho sagrado na mata,
o teu despudor, a minha tara,
o nosso carro quebrado,
pobre coitado,
a doce violência, o afago,
o seu medo-pânico fingido
do teu vândalo/vassalo
em nossos transportes de gozo,
minha princesa, princesa,
princesa, princesa minha,
minha deusa, meu amor,
meu amor...!

se foram, todos, pra sempre,
contigo.

***
Hoje, sou respeitável,
sou cidadão imaculado,
verdadeiro pilar
da comunidade...

Aqui, hoje, cercado desses luminares,
sobrenado. E sobrevivo nessa
descarnada realidade
do meu dia-a-dia.

Sabes? Nessa casa fria
coisas me vêm na cabeça, doidas,
quando chove como agora...

É que sozinho fiquei
pra sempre, querida, tragicômico,
depois que te fostes, assim,
tão casual - enguiçado
n’algum ponto remoto
do tempo

perdido pra sempre,
à cata da nossa vida,
do teu rosto
teu suor
tua voz
de ti


.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

domingo, 12 de novembro de 2006

Personalidade da Semana... II


BETINHO



Herbert José de Souza, o Betinho, nasceu em 3 de novembro de 1935, em Minas Gerais, região montanhosa no interior do Brasil cujos habitantes são conhecidos por sua mansidão, pelo jeito calmo e sutil. "É um mineiro", diz-se das pessoas equilibradas, que dificilmente se exaltam ou assumem posições contundentes. Isso talvez ajude a explicar por que Betinho, assumindo integralmente as mais radicais utopias de transformação social, fazendo da sua própria vida uma bandeira costurada de bandeiras universais, sempre trabalhou no sentido de congregação, da união.


Terceiro de uma série de oito irmãos, completou, em 1962, os cursos de Sociologia e Política e de Administração Pública na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais. Nessa época, atuou como liderança nacional dos grupos de juventude católica que representavam as aspirações de transformação social, depois reforçadas com o Concílio Vaticano II e participou das conquistas pelas chamadas "reformas de base". Segundo testemunho do escritor Otto Lara Rezende, da Academia Brasileira de Letras, Betinho, nas praças públicas, pedia tudo que os comunistas pediam - e mais o céu. Nesse período de vida democrática do Brasil, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura e na Superintendência de Reforma Agrária, além de elaborar estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU. Data desse período também a sua presença nos movimentos operários brasileiros.

Com o golpe de 64, passou a atuar na resistência contra a ditadura militar, dirigindo organizações de cunho democrático no combate ao regime que se instalava. No começo da década de 70, foi para o exílio e, como no poema de Brecht, trocava de país como quem trocava de sandálias. Morou primeiro no Chile, em Santiago, onde deu aula na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales e atuou como assessor do presidente Allende.

Conseguiu escapar do sangrento golpe militar do general Pinochet, indo para a embaixada do Panamá, em 1974. Seguiu depois para o Canadá e México. Exerceu, nessa época, diversos cargos: diretor do Conselho Latino-Americano de Pesquisa para a Paz (Ipra), consultor para a FAO sobre projetos e migrações na América Latina e coordenador do Latin American Research Unit (Laru), entre outros. Foi, ainda, professor efetivo no Doutorado de Economia da Divisão de Estudos Superiores, na Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autonoma do Mexico, e diretor de Brazilian Studies, no Canadá.

Com o crescimento dos movimentos pela democratização dos meios de comunicação no Brasil, seu nome tornou-se um dos símbolos da campanha pela anistia. Em 1979, retornou ao país e envolveu-se inteiramente nas lutas sociais e políticas, sempre se propondo a ampliar a democracia e a justiça social. No início dos anos 80, ajudou a fundar o ISER - Instituto de Estudos da Religião -, presidiu a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS - ABIA, fundada, em 1986 e uma das primeiras e mais influentes instituições do País, preocupada com a organização da defesa dos direitos das pessoas portadoras do HIV ou doentes com aids. A sua luta pelo direito à vida aos portadores do HIV/AIDS não foi apenas pessoal, mas contextualizou-se em um nível mais amplo e elevado, o da defesa da dignidade humana. Além disso, dedicou-se à Coordenação-Geral do IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas -, cargo ocupado até os últimos dias, com firme resistência física e brilhante lucidez e consciência da realidade brasileira, cuja perversidade - exclusão social, concentração de renda e controle político - nunca deixou de denunciar. O Ibase é uma entidade governamental e tem como objetivo principal democratizar a informação acerca das realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil.

A natureza não foi benevolente com o cidadão Betinho. Hemofílico, contraiu a aids em uma das inúmeras transfusões de sangue a que era obrigado a se submeter. Por essa mesma condição genética, em 1988, em um intervalo de três meses, Betinho perdeu dois irmãos: o cartunista Henfil, aos 43 anos, famoso pelo uso hábil e criativo do humorismo na crítica à ditadura militar, mesmos nos seus piores momentos de repressão à livre expressão política; e o músico Chico Mário, com apenas 39 anos. Mesmo abalado por estes acontecimentos, Betinho nunca abandonou a militância política, sempre presente em cada evento que levantasse a bandeira do humanismo.

No dia 05 de julho de 1997, Betinho foi internado no Hospital da Beneficiência Portuguesa, no Rio, vítima de uma infecção oral. Vinte e seis dias depois, pediu para voltar para casa. Morreu aos 61 anos, em 9 de agosto do mesmo ano, em sua casa, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, vítima da hepatite C. Em 11 de agosto, o corpo do sociólogo foi cremado. A seu pedido, as cinzas foram espelhadas em seu sítio em Itatiaia.

Betinho é, sem dúvida, o símbolo da determinação e do trabalho incansável pela cidadania, pela restauração da verdadeira democracia participativa, pela valorização da solidariedade e dos direitos humanos em uma sociedade injusta. Por essa constante postura desempenhou um importante papel em relevantes momentos da história recente do país e em vários movimentos de mobilização social, entre eles: a articulação da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, em 1983, congregando entidades de trabalhadores rurais; a organização, em 1990, do movimento Terra e Democracia; a liderança, em 1992, do Movimento Pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano. Terminada a batalha do impeachment, Betinho dedicou-se à Ação da Cidadania contra a Miséria e Pela Vida. A campanha contra a fome ganhou as ruas em 1993 e chegou ao final daquele ano com total aprovação da sociedade - 96% de concordância, segundo o Ibope. Sua figura humana adquiriu, então, notoriedade definitiva como o incansável Coordenador da "Ação pela Cidadania contra a Fome e a Miséria", que pretendia ir além de um movimento social de caráter assistencialista, para aglutinar outros movimentos e iniciativas individuais e comunitárias em todo o País. A "Campanha do Betinho" foi tão polêmica quanto popular e o seu sentido político maior, razão principal da polemização em torno de suas ações, tinha por objetivo final a promoção da cidadania, do direito ao emprego e da luta pela terra, etapa final do programa de ação planejado e o maior legado público da vida deste brasileiro humanista.

No ano de 1994, lançou a Campanha "Natal sem Fome", que arrecadou, no primeiro ano, 600 toneladas de alimentos. Em agosto do mesmo ano, fez um pronunciamento na ONU, na reunião preparatória para a Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Social. Houve, ainda, dois momentos marcantes: a Caminhada pela Paz do Movimento Reage Rio, em novembro de 1995; e o desfile no carnaval de 1996, quando Betinho foi enredo da Escola de Samba Império Serrano, no Rio de Janeiro, cujo tema foi: "E verás que um filho teu não foge à luta". Em suas últimas iniciativas, entre os anos de 1996/1997, apresentou uma proposta para a Agenda Social Rio 2004 ao Comitê Olímpico Internacional, quando a cidade do Rio de Janeiro empenhou-se em sua candidatura à sede olímpica, em 1996; lançou, via Ibase, a Agenda Social Rio 2000, tentativa de lutar pela melhoria da qualidade de vida no Estado do Rio de Janeiro, por meio da implantação das metas sociais por ele idealizadas; e, em julho de 1997, num encontro com empresários de todo o país, lançou a campanha de adesões ao Balanço Social, uma espécie de balanço financeiro onde os indicadores são os investimentos sociais feitos por empresas.

Ao longo de sua trajetória, publicou, ainda, diversos livros, artigos e ensaios, sempre com a mesma preocupação de criticar as estruturas que tornam a vida difícil e injusta para milhões de pessoas.

Declaração desesperada /descarada de amor...

HERÓI POR UM DIA
(depois de ouvir "Heroes", com Wallflowers. Música e letra do imenso David Bowie)


Corto a grama, periodicamente, quando tu pedes... Mas queria cortar cabeças hediondas, num só golpe rude e terrível, pra te proteger dos hunos todos, de todos os mongóis predadores, de forma sangrenta e final.

***

Lavo a louça, quando ela se amontoa na pia. Mas queria lavar de sangue teus inimigos, teus algozes, princesa, de forma tão radical que te prostrarias, desfalecida, ou quase, a meus pés, e trêmula, me implorarias – ao teu campeão – para jamais te deixar sozinha, à mercê dos bárbaros cruéis...

***

Batuco cotidianamente no meu teclado, que a vida é dura, e é preciso correr atrás da grana... Nos livros, vivo em meio a imagens de ossos fraturados, de cortes cirúrgicos, vísceras, fígados... E de fotografias impressionantes de cânceres e deformidades e outros malefícios, e de distúrbios que só existem, princesa, no imaginário dos especialistas e dos ultra-especialistas dessa medicina tão moderna e tão inútil, nos livros que traduzo, cotidianamente....

***

Ah, princesa, é só isso que faço... Mas queria mesmo é batucar noutros teclados. Com uma acha de lenha pesada e nodosa firmemente empunhada, queria avassalar teus pesadelos, e porrar firme tuas indecisões, e matar de susto teus medos e terrores que não consigo ainda compreender... E deixar desanuviada tua cabecinha loura, com tanto espaço vazio, querida, que eu, certamente, caberia todinho nela, e povoaria, herói sempre! tuas manhãzinhas enevoadas e o dia inteiro. E, nas noites enluaradas, provaria, safado e sorridente, dos teus prazeres... E quando a madrugadinha baixasse, e se, com sorte, estivesse chovendo tempestades coruscosas e raios fulgurantes, certamente tu acordarias assustada e me convocarias, aos prantos, pra afastar esses novos terrores que chegam quando estamos sós, no meio da chuvarada...

***

Ah, moça complicada, criança exigente, mulher maluca, queria não ser o lamentável Homem Comum dos Nossos Dias, esse patético ser aterrorizado por cartões de crédito e contas bancárias, pelas dívidas idiotas que fazemos todos nós, pelo terror abjeto que se introduz na gente se, temerosos, saímos à noite pelas ruas da cidade... Queria não depender de um empreguinho estúpido e tão pouco criativo. Queria não me trair. Queria não me perder – que há tanta coisa boa a fazer e a pensar! – nas bobagens triviais que consomem nossos dias: contas, despesas, a roupinha da moda, atritos babacas, rusgas idiotas, a necessidade de ostentar o que não somos, o eterno representar diante de outras pessoas, quase sempre tão idiotas como nós, tão perplexas como estamos... Não queria mostrar somente a pontinha do iceberg que sou eu. Queria me revelar todo, e queria que todos se revelassem – quantidades inteiramente conhecidas, ávidas de vida... Queria não ser esse cara previsível, que já não combate mais à sombra das ínúmeras setas lançadas pela vida, como combatiam, com um sorriso largo de escárnio os heróis guerreiros de outrora, à espera da morte honrosa...

***

E como já combati, co’a tua imagem pregada junto a meu peito, tua fotografia de menina sorridente e feliz, balançando junto com meu coração ! Ah, princesa, como eu queria de novo ser Herói apenas por mais um dia, pra que tu me percebesses novamente e, ao me enxergar, me olhasses no fundo, como olhavas antigamente. E visses em mim não essa casca velha que agora apresento, essa ruína, mas um espelho que refletia, milímetro a milímetro, segundo após segundo, tua própria insolência e fome de vida... Que teus olhos reconhecessem, ainda uma vez ! o guerreiro corajoso e bravo que sempre te conduzia, há milhões de anos atrás, pro universo recôndito e misterioso dele, pro seu mundo repleto de mágicos, e de fadas, de deuses e diabos, anjos e íncubos... Que descobrisses novamente, maravilhada e contente, faminta mas saciada, teu antigo celacanto, vigoroso e voraz, amante e amigo, teu antigo peixe-cavaleiro pra todas as horas dessa nossa vida...