um artista.
O ARTISTA E A OBRA DE ARTE
UMA POSIÇÃO UTÓPICA
UMA POSIÇÃO UTÓPICA
1. Para começo de conversa, a obra de arte deve literalmente por para fora (= ex-por) as intenções do seu autor. As preocupações do artista, antenado-antena da sua época, devem esvair-se da sua obra, por vezes insidiosamente, em certos casos de maneira recôndita e tranquila, e muita vez de forma barulhenta, aos gritos, corrompendo o ar circunjacente à obra, intoxicando os que passam diante (ou através) da obra. A obra, esta deve ser hemorragia, deve ser ímã, pólo de atração do transeunte, meio de interação, questionamento, instigação, denúncia.
2. No espaço mágico da rua, na plataforma de uma estação do metrô, na praia, num estádio de futebol, ou num grande espaço aberto - em qualquer local (e, já como contradição, na própria sala fechada de exposições) é preciso que o transeunte se chegue, venha a se deparar com a obra, interaja, seja questionado, insultado, infectado, afagado, tocado intestinamente... Não deve ser um “innocent bystander” - que bypassa aquilo que mal-vê e, depois de alguns cálices de vinho e canapés, segue contente seu destino intocado - na sua condição de massa de pão cotidianamente amassada, fornida do fermento que o faz crescer apenas na aparência - não na essência - e pronto para ser de novo devorado todos os dias pela mesmice que o cerca, atolado que está na manteiga da indiferença que lubrifica a sua (e nossa) preguiça de pensar...
3. A obra não pode ser apêndice, apenas compondo temporariamente o espaço maior que é a sala (e aqui, sala pode ser entendida como metáfora para qualquer lugar). A obra é autônoma e tem vida em si, independentemente do que jaz circunjacente a ela. A obra é. Sua mensagem deve ser polivalente e polidirecionada, de modo a atingir horizontal e verticalmente, na superfície e nas camadas mais profundas, o seu alvo, seu transeunte-interator; a obra de arte cria tiroteio, e é balística. De modo que, quando o interator se afastar à busca de seus afazeres, deixe temporariamente de ser massa e leve consigo (mesmo se sentindo incomodado) a trajetória da obra, as preocupações e questionamentos imanentes à obra que o violou, que o transgrediu. Isto é, leve consigo fisicamente a obra, que agora passa a fazer parte de seu próprio acervo fisiológico, cutucando suas idéias.
4. A obra plástica é um texto não-literal, mas ela propõe cabalmente, por outras escritas e linguagens e idiomas, questões originadas na leitura que o artista faz do que o cerca. O artista, esse se doa ao mundo, se permite antropofagar através de sua cria, num ritual que, infelizmente, parece estar desaparecendo nos nossos dias... Mas a carne mística do artista - a sua obra - vai alterar o alvo-transeunte de modo sutil ou brutal, imediatamente ou com o passar do tempo. Em alguns expectadores, como um sutil gotejar; em outros, como caudal avassalador. A obra é óstia que salva, mas faz pecar. Contra o conformismo. Contra a igualdade burra. A favor da diversidade. Para o bem ou para o mal, a obra deve ser o fio indutor d’alguma modificação subseqüente à interação, à interpenetração. E o transeunte-alvo-interator que não fica incólume à ação modificadora do artista através de seu braço plástico ganha acesso aos múltiplos canais de integração das antenas parabólicas giratórias do artista, assestadas para todas as direções de seu mundo estético. E o artista também se embebeda nessa integração.
5. Assim, o interator, o espectador, e até o “innocent bystander” podem compreender melhor seus próprios mundos. E essas pessoas se transformam para sempre em indivíduos, em co-autores da obra. Co-autores sim, pois a obra apenas se completa, e passa a ter razão de ser e atinge seu zênite se for vivenciada - imprescindivelmente - pelos outros, por nós todos. Nesse sentido, a obra é uma estrutura física/conceitual necessariamente inacabada que, de repente, se completa porque, nós, os expectadores, fomos tocados por ela. E porque a obra nos incomodou, e nos fez pensar, passamos a ser um pouco divinos e um pouco demônios... E um pouco artistas.
6. Na verdade, a obra de arte é um ato ético. Mais do que documento estético, a obra de arte é proposta de uma ética que transcende leis e regulamentos escritos, raramente apoiada e quase sempre negada pela consciência pública que paira na nossa época. É fruto de outras vivências, outras vidas, outras obras, outros pensares. Cabo de alta tensão cujo choque é pleno de riscos, pois os conceitos do verdadeiro artista são sempre transgressores, sempre são a ponta de lança que perfura o cenário estático, que o mobiliza, o desorganiza, o avassala; que fere o futuro, que não se contenta com a mesmice, e que quer conflitar contra o nivelamento emburrecedor; que quer sangrar o hoje, mas que pretende também eviscerar o futuro. A obra de arte é isso: ela pretende. Ela antecede as tendências. Ela aponta. E o artista não quer desprezar o passado - por ser coerente com uma linha, tênue linha, que o amarra indelevelmente a outros artistas que vieram antes, desde o início do tempo... Através de sua obra, o artista quer ser humildemente mais um elo nessa linha de coerência.
7. O artista não deve nada a ninguém, e não tem por objetivo agradar a quem consome/vivencia sua obra. A técnica utilizada, o bem-acabado, o mal-acabado, são apenas figuras de retórica inúteis. A estética, o belo, o fazer artístico, aqui, têm outras conotações... O que vale, no final das contas, é a IDÉIA DO ARTISTA. Vale o que ele implicita no material utilizado. Nenhum assunto a ser vedado, nenhuma circunstância interdita: o lixo, a miséria, a política, a pornografia, o trânsito caótico, momentos de intimidade, os ladrões de todas as espécies, a guerra, a inércia, estupro, lirismo, o acovardamento diante da vida, a sublime e idiota coragem de se finar por uma idéia, o amor, a paixão, o charlatanismo, a natureza, o ódio, o dinheiro, a religião, a morte, e a vida além da morte...
8. Para a humanidade, é mister que o artista projete sempre suas dúvidas e incertezas, seus questionamentos e afirmações, suas convicções, sua opinião sobre as coisas. Nos nossos dias, o artista é um animal dicotômico - tido por muitos como supérfluo, oportunista, e anacrônico; e por outros também e sempre aquele que ainda tem muito a dizer nesse totalitarismo onipresente orquestrado pela mídia, que a tudo nivela. O artista é talvez o santo dos nossos dias. Ele pode divinizar. Mas também pode demonizar. Pois o artista desnivela. E diz. Vai contra a corrente.
9. Nós, os alvos-transeuntes, somos aquela manada de bois cabisbaixos que atravessam o pátio do matadouro, de manhãzinha - todos os animais acabarão mortos, é verdade, mas o primeiro a ser escolhido para o abate é o touro que eleva sua cabeça acima dos demais, olha p’ro horizonte, e que urra e se debate, e gira e revolteia, e luta contra a situação, contra as circunstâncias adversas, contra o que está para vir, contra o irremediável... Esse touro idiota deve ser logo abatido, dizem os carniceiros, pois que sua ação é infecciosa, vai de encontro ao que é normal. E os carniceiros sabem, temerosos, que a denúncia do touro pode não cair no vazio, e que a manada talvez esteja pronta - embora não pareça - para seguir a a dança do touro, a idéia nova e impensada, o conceito transgressor que redimirá todo o rebanho, e fará com que ele arremeta contra as cercas engessantes do curral da nossa época, destruindo-as, esfacelando-as em busca da suprema liberdade de pensar por si...
10. O artista se nem sempre se exprime de modo fluente, não hermético, mas sua obra sempre pede mais VIDA. Ele age. Ele não tem medo. Ele combate a MORTE. O artista deve ser claro em suas intenções e, na venda & tráfico daquilo que tem a denunciar através da sua obra, O ARTISTA DEVE SER CHATO À EXAUSTÃO. Inconveniente. Metido. Melífluo. Convencedor. Convencido. Co-movente. Por sua obra, chantagista, assaltante. Agressivo. Louco, às vezes. E louco, nas demais vezes. SEMPRE LOUCO. Mas SEMPRE LÚCIDO...
11. E sua obra, como máquina de moer a carne dos conceitos e hábitos estratificados e da imobilidade das concepções e modos de vida pré-determinados, é oferecida a todos para ser consumida, entendida, execrada, discutida, agredida, afagada, endeusada, traficada, crucificada, idolatrada ou odiada. Mas a comida-obra de arte não é para ficar intocada no prato; ou melhor, não pode ter como resposta a indiferença alvar e pachorrenta do espectador. A bovina acomodação da massa de pão cotidianamente lubrificada. O conformismo uniforme da manada bovina pronta para o abate. É isso que a obra de arte denuncia. E é contra isso tudo que o artista combate. Jamais à sombra, mas sob o sol abrasador. Sempre se expondo às claras. Com muito suor. Com muita gana. Apaixonadamente.
Utopia, s, f., projeto de natureza irrealizável; idéia generosa, porém impraticável; quimera, fantasia.
É isso aí, artista, a minha viagem. Aguardo sua opinião.
FNAX

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